NR-1 e riscos psicossociais no ambiente de trabalho em 2026

NR-1: empresas entram na reta final para adequação aos riscos psicossociais em 2026

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1, a NR-1, colocou a gestão dos riscos psicossociais entre os principais temas de segurança e saúde no trabalho em 2026. Desde 26 de maio, a nova redação da norma está em vigor e determina que fatores psicossociais relacionados ao trabalho sejam considerados no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o GRO, e tratados dentro das medidas de prevenção adotadas pelas organizações.

A mudança amplia a atenção tradicionalmente dedicada aos riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes. Agora, aspectos relacionados à própria organização e gestão do trabalho também precisam ser analisados quando puderem representar riscos à saúde dos trabalhadores.

Entre os exemplos apresentados pelo Ministério do Trabalho e Emprego estão excesso de demandas e sobrecarga de trabalho, assédio, falta de suporte e outros fatores ligados às condições em que as atividades são realizadas. A proposta não é avaliar características individuais ou diagnosticar a saúde mental dos profissionais, mas identificar situações relacionadas ao trabalho que possam contribuir para o adoecimento.

Fiscalização entra em nova etapa

A entrada em vigor da atualização da NR-1 ocorreu em 26 de maio de 2026, mas o próprio Ministério do Trabalho e Emprego estabeleceu um período inicial com caráter predominantemente orientativo para as novas disposições da norma.

Segundo documento de perguntas e respostas sobre GRO e PGR publicado pelo MTE, aplica-se inicialmente o critério de dupla visita. Durante os 90 dias subsequentes à entrada em vigor, a Inspeção do Trabalho tende a priorizar orientação, instrução e notificação para que as empresas possam corrigir e aperfeiçoar seus processos. Após esse período, irregularidades identificadas pela fiscalização poderão resultar nas medidas administrativas previstas na legislação, incluindo autos de infração, dependendo de cada situação.

Isso torna agosto um período especialmente importante para organizações que ainda estão revisando seus procedimentos. O prazo inicial de orientação não significa dispensa do cumprimento da NR-1. A recomendação oficial é aproveitar esse intervalo para estruturar, revisar e aprimorar os processos de gerenciamento dos riscos ocupacionais.

Saúde mental aumenta importância dentro da segurança do trabalho

A atualização acontece em um momento de crescimento dos afastamentos relacionados à saúde mental no Brasil.

Dados divulgados pela Fundacentro apontam que foram concedidos mais de 546 mil benefícios relacionados a transtornos mentais e comportamentais em 2025, crescimento superior a 15% em comparação com o ano anterior. A instituição também chama atenção para a possibilidade de subnotificação da relação entre parte desses casos e as condições de trabalho.

Outro levantamento do Ministério da Previdência Social mostra que o Brasil concedeu mais de 4,1 milhões de benefícios por incapacidade temporária em 2025. Entre as principais causas específicas estavam os transtornos ansiosos, com mais de 166 mil concessões, e episódios depressivos, com mais de 126 mil. Os dados abrangem benefícios previdenciários e acidentários e, portanto, não significam que todos esses casos tenham origem ocupacional.

O cenário ajuda a explicar por que a prevenção dos riscos psicossociais passou a ocupar posição de destaque nas políticas de segurança e saúde no trabalho. A própria Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho de 2026 adotou a prevenção dos riscos psicossociais como tema central.

O que muda na prática para as empresas

A aplicação da NR-1 exige uma abordagem estruturada. Não basta realizar uma palestra sobre saúde mental ou oferecer ações isoladas de bem-estar. O gerenciamento precisa estar relacionado às condições reais de trabalho e integrado aos processos de identificação, avaliação e prevenção dos riscos ocupacionais.

A Fundacentro destaca que a análise deve considerar aspectos da organização e da gestão do trabalho, além de estimular a participação dos trabalhadores no processo de identificação dos problemas e construção das medidas preventivas.

Na prática, empresas e profissionais de segurança e saúde no trabalho precisam observar como atividades, jornadas, demandas, formas de liderança, relações profissionais e processos organizacionais podem afetar os trabalhadores. A partir desse diagnóstico, devem ser estabelecidas medidas de prevenção, acompanhamento e melhoria.

Documentar as avaliações e as ações adotadas também ganha importância. Em uma eventual fiscalização, o foco não está somente na existência de determinado risco no inventário, mas na consistência do processo utilizado pela organização para identificar, avaliar, controlar e gerenciar os riscos existentes.

Prevenção passa a ocupar papel ainda mais estratégico

A atualização da NR-1 reforça uma mudança de perspectiva na segurança do trabalho: prevenir significa observar não apenas máquinas, instalações, produtos e equipamentos, mas também a maneira como o trabalho é organizado.

Para as empresas, a adequação representa uma oportunidade de revisar processos, fortalecer políticas de prevenção e criar ambientes de trabalho mais seguros e sustentáveis. Para profissionais de SST, o momento amplia a necessidade de integração entre diferentes áreas e de acompanhamento contínuo das condições de trabalho.

Com o encerramento do período inicial de orientação se aproximando, organizações que ainda não revisaram seus processos relacionados à NR-1 devem colocar o tema entre suas prioridades.